Pelos vistos é assim: há emoções que só se escrevem em papel, à luz de uma lua em quarto crescente, para mais tarde passar para o computador!...
Mais do que detalhes de uma história, aquilo que senti nesta noite conta-se assim.
No reboliço de um novo dia, de uma família mais cheia, de uma história que se escreve para sempre de um modo absoluta e definitivamente diferente.
Nesta noite, chegou até mim a minha filhota
Mercedes!
Ainda que o facto de já ser pai deixe prever ou antever muitos dos passos, as emoções são agora tão ou mais intensas, na medida em que sei melhor o que esperar.
Ter uma filha - agora duas - foi a melhor e mais surpreendente coisa que aconteceu na minha vida! O resultado puro do amor que sinto pela Bárbara, dos nossos sonhos e do nosso desejo. Cada dia que passa elas dão mais sentido à minha vida!
Na correria dos dias que passam, vemos mudar luas no céu da noite, sem que nada deixe prever a tua chegada. Até ao momento certo, em que tu decidiste nascer.
Num misto de dúvidas, de ansiedade, mas na certeza de que tudo ía correr bem, tive oportunidade de assistir ao teu nascimento. É mais 'o privilégio', porque foi de facto um momento mágico e cheio de significado.
Não vou saber expressar a admiração que senti pela Bárbara, pela coragem, pela força e resistência, pela determinação extrema, num grau que não lhe conhecia. Surpreendeu-me mesmo, porque foi espectacular! E estar ao seu lado, só assim, sem deixar, foi muito importante para mim. E parece que para ela também.
Líquido amniótico à 1h, em casa. Contracções de 6 em 6 minutos, desde logo. Preparar tudo, a Bárbara a tomar um duche entre as contracções, enquanto ligo à minha mãe para ficar com a Madalena, que dormia descansada... Trocar a cadeirinha de carro, deixar as chaves e tudo mais, para que a Madalena pudesse ir ao colégio no dia seguinte, tendo um dia normal, até que lhe pudesse explicar o sucedido. Só quis assegurar-me que neste momento que ela tanto esperava, tudo não lhe parecesse confuso, ou que despertasse nela mais ansiedade e insegurança.
Viagem tranquila até ao hospital, chegada às 2h.
A Bárbara entre às 2h15, logo após a inscrição. Fica 40 minutos lá dentro, e depois sai, entregando-me a roupa. Diz-me pouco, continuamos sem saber muito. Continua com contracções e tem 3cm de dilatação. Muito pouco ainda. Não podendo o parto ser induzido, o que acontecerá? Em minutos chamam-na novamente. Decido arrumar as coisas no carro. Quando regresso, como qualquer coisa, enquanto espero que ela saia novamente.
Estou sozinho. Ainda me ocorre ligar a alguém. Mas estranhamente apetece-me estar sozinho. Não me sinto desacompanhado. Alguém parece ouvir isto, e eis que me chamam para o bloco de partos!!
A Bárbara já tinha entrado, e estava deitada, monitorizada, com contracções. Diz-me que não vai levar epidural. Fico assustado, penso em falar com alguém. Estamos com 40 semanas e 2 dias (já 3), o outro parto foi de cesariana, por isso é quase como se fosse um primeiro parto, e para além disso pensamos que a bebé será grande, tendo em conta os dados da última ecografia… Penso que não pode correr bem! Mas a B. explica que lhe disseram que já não dá tempo, que ela já tem muitas contracções. Vai correr tudo bem!
Continuam as contracções mais ou menos de 6 em 6 minutos. Fico vê-las chegar, agarrando a mão da Bárbara a cada uma. As enfermeiras vão e vêm, sempre com um sorriso, um gesto carinhoso ou uma palavra amiga. Tranquilo, o ambiente estava tranquilo, sempre com os batimentos da Mercedes como som de fundo, entre os 130 e os 140 por minuto.
As contracções descem até por volta dos 10, e aumentam rapidamente, 30, 40, 50, 60, 70, até às 80 no final. 5, 6, 7, 9cm de dilatação. ‘Está mesmo quase!’ – diz a enfermeira.
A B. tenta não fazer força, pedem-lhe para esperar. Só vejo números: as horas, o espaço entre as contracções, a intensidade, os batimentos, o peso previsto da bebé. São 5h e pouco, montam um imenso aparato por trás de mim. Dizem-lhe que já está, que pode fazer força quando quiser.
Vem uma, e outra, e outra contracção. A B. faz uma força imensa e dizem-lhe que continue. Imaginava que se complicasse, mas quando ela diz que não vai ser capaz, dizem-lhe que já está, é só mais um bocadinho, que já está a cabeça cá fora! E estava mesmo!!
Mais um pouco e a Mercedes saiu! Linda, perfeitinha, toda roxa e com a cabeça toda amarrotada, toda torta! LINDA! A B. tinha conseguido tudo, e muito bem!
Segurava-lhe a mão, quando me perguntaram se queria cortar o cordão. Porque raio perguntam uma coisa destas? Disse ‘deixe lá’! Acho que o importante era estar ali para a Bárbara, não atribuo um grande significado a isso do cordão. Mas perguntaram de novo, e lá fui! Cortando o cordão e memorizada a sua expressão, colocaram-na sobre a Bárbara. Lindas, as duas! Depois levaram-na para limpar e pesar, e trouxeram-na pouco depois. 3,990Kg!!! É enorme, ficou conhecida como a gorda das 5h da manhã! Deram-ma ao colo, de seguida, enquanto a B. foi cosida.
A enfermeira não conseguiu começar a coser, e chamou uma médica. Esta chegou perto das 6h. Só às 7h15 terminaram… Foi complicado, porque a bebé era muito grande.
Acho que as enfermeiras devem estar mesmo habituadas a ver os pais desmaiar. A certa altura, uma delas perguntou-me se estava bem com a bebé. Claro que sim! Onde é que esperavam que a deixasse?! Era a minha filhota que ali estava! Mas entendo a sua questão. No nascimento da Madalena, não pude assistir, uma vez que foi cesariana. Mas como o médico que a operou é um amigo meu, vi logo a bebé e pude ficar com ela ao colo todo o tempo, junto à B., na sala de recobro. Pesava menos 500g do que a Mercedes, mas o meu braço ficou-me a doer no final do dia!!
Ficaram em seguida as duas no recobro. Só perto das 11h subiram, e ainda as acompanhei ao quarto, empurrando a sua cama (aproveitando a falta de pessoal)! Só assim tive oportunidade de as deixar bem instaladas no quarto.
Foi um momento mágico de partilha. Único e muito importante. Um culminar de uma etapa, um fim e um começo, que tinha de ser assim, neste capítulo da nossa história!
Ao mesmo tempo em muito semelhante, muito é diferente da Mercedes e no modo como ela se relaciona comigo e com a Bárbara.
No decorrer do dia, pedi que nada dissessem à Madalena. Quis ser eu a dizer-lhe, para que não se sentisse logo posta de fora de um assunto que é nosso, desta família.
Quando a fui buscar, disse-lhe que tinha uma surpresa: a mana tinha nascido! Podíamos ir ter com a mamã e com ela, para a conhecer!
Ficou de boca aberta, sentada na cadeirinha do carro, encantada!
Chegamos antes de todas as visitas, fora do horário. Entrámos, e ela viu-as! Ficou espantada, admirada, surpreendida. Talvez um pouco confusa, nos seus ainda menos de 2 anos e meio. Mas quis dar-lhe beijinhos, fazer festinhas, pegar ao colo. E nós deixámos tudo! É a sua mana Mercedes, e ela sabe isso, sente isso!
O dizer-lhe isto, levá-la lá, é mais um momento de grande emoção para mim! Poder acolhê-la, sentir o seu coraçãozinho bater acelerado, a ansiedade de conhecer a irmã. O acreditar que isto terá tanto de positivo, e que será para a vida delas toda! O aceitar as dúvidas.
Tentei que os dias seguintes fossem, acima de tudo, o melhor e mais regulares possíveis para ela. Jantou nos avós, como tanto gosta. Dormiu cá em casa sempre. Foi ao colégio brincar com os amiguinhos, como sempre!
Claro que o seu comportamento se alterou. Mas até agora ela tem sido também muito corajosa, muito bonita!
São as minhas primeiras estrelas, a brilhar nos meus olhos com aquele brilho da primeira estrela a quem se pede um desejo, a cada noite.
E aqui conta-se a sua história, na minha história!