Sempre que leio sobre o assunto, profissionais, pessoas, todos apelam ao bom senso. Não será fácil, quando se fala de divórcio.
Quanto aos meus direitos paternais [às chamadas responsabilidades paternais] não tenho grandes dúvidas ou questões. Mais do que aquilo que sei, mais do que está escrito na lei, tenho consciência da experiência que vivi ao longo de mais de cinco anos. E mais do que isso ainda, sei o que sinto pelas minhas filhotas, e tenho a certeza do sentimento que elas têm por mim.
Sempre fui um pai muito presente, absolutamente presente. E aqui se encontram partes soltas daquilo que vivi. Sempre tão ou mais presente do que a mãe, habituei-me desde logo que quem acordava a meio da noite para lhes dar o biberão, para lhes mudar a fralda ou aliviar as cólicas era eu, ainda que a mãe estivesse de licença de maternidade, e eu no dia seguinte me tivesse de levantar cedo para ir trabalhar. Aqueles que nos conhecem bem, sabem que sempre foi assim.
Daí passamos para ser eu a levar as miúdas ao colégio, e tantas vezes ir buscá-las, para que não tivessem de ficar lá tanto tempo, mesmo prejudicando a minha disponibilidade profissional. Não digo que não me agradasse, mas por vezes foi complicado. Mas permitiu-me de facto estar sempre presente para as minhas filhas, o que é óptimo!
Sempre as acompanhei às consultas médicas, até ao ponto em que a mãe delas deixou de trabalhar, o que fez com que eu tivesse de me dedicar mais ao trabalho, dispender mais tempo na empresa e trabalhar à noite, depois das miúdas adormecerem, tantas vezes até às 3h e 4h da manhã... Não deixei nunca, mesmo nessa altura, de lhes dar banho e vestir os pijamas, jantar com elas e dedicar-lhes a atenção necessária, acompanhá-las a lavar os dentes e adormecê-las com uma história ou com canções. De facto desde esse período, porque foi muito complicado para nós economicamente, não pude dispor do mesmo tempo, mas mesmo assim, com a mãe em casa, levei-as e trouxe do colégio diversas vezes, era eu que acordava de manhã para lhes dar o pequeno almoço, e ela ficava na cama até que nós saíamos. Só de vez em quando as ía buscar, durante um longo período de tempo, em que esteve deprimida, e mesmo depois. Olhando para trás, não consigo deixar de admitir que facilitei demasiado a vida da mãe das minhas filhas, prejudicando-me, porque não houve qualquer reconhecimento!
Mesmo nas noites em que trabalhava até de madrugada, quando subia para me deitar, se as miúdas acordavam passado uns minutos, ou uma hora, era sempre eu que me levantava, porque a ela lhe custava muito, e não era capaz... dizia.
Sempre que foi necessário ir com elas ao hospital, por motivo de urgência, fui eu que as acompanhei.
Sinto que sou uma pessoa mais equilibrada, enquanto pai, para elas. Não apenas pelas depressões que a mãe delas já teve por diversas vezes, desde o início do nosso namoro. Não só por ela ter tido acompanhamento psiquiátrico, psicológico, pelo historial familiar dela, ou pela medicação que toma constantemente. Mas pelo modo como se relaciona, pela forma como fala e pelo que exige das miúdas, sobretudo da mais velha, e pela rigidez com que o faz. Não me parece equilibrado, ou sequer justo, para com uma criança de cinco anos, ainda mais quando já o faz desde os três. Está a destruir a sua personalidade, o seu equilibrio também, a sua auto-estima, provocando constantemente comparações com outras crianças, ou pior ainda, com a própria irmã mais nova.
Sei que posso oferecer-lhes uma situação económica mais confortável, porque foi aquilo que sempre fiz. A custo de muito trabalho, de investimento, algumas vezes com algum risco, mas nunca tive medo de trabalhar mais para chegar a algum lugar um dia: para poder dar às minhas filhotas melhores condições de vida. E foi isso que fiz, e que pretendo continuar a fazer.
Ainda assim, reconheço que para elas, o pai será sempre o seu pai, e a mãe será sempre a sua mãe. Estará na genética, talvez, e no tempo que passaram conosco até agora. Na sua vida, na sua aprendizagem.
Se por momentos pensei que valeria a pena que permanecessemos juntos, só para que elas tivessem os pais juntos, cheguei depois à conclusão que não. E cheguei a essa conclusão precisamente por pensar nelas, no futuro e na felicidade delas! Nada melhor do que isto para traduzir o que estou a sentir. Não me interessa se no futuro elas estarão casadas, solteiras, a viver com alguém que amam, com um amigo ou com uma amiga. No fundo, o que eu desejo é que elas estejam felizes, seja de que modo for! E se eu quero que elas tenham este padrão, eu tenho de ser esse exemplo para elas. A verdade é que eu e a sua mãe não estavamos a ser esse exemplo, há já algum tempo. Ela não é uma pessoa feliz por natureza, é pessimista, vê sempre as coisas pelo lado negativo, e acha que tem sempre menos do que os outros, seja no que for. E não é assim. Com o tempo, com a família e com tudo o que construímos, pensei que ela ultrapassasse isso e fosse feliz, mas isso nunca aconteceu. E esperei que quando esse dia chegasse, ela voltasse a dar-me o que eu senti quando começamos a namorar, e recebesse tudo aquilo que lhe queria dar. Esse dia nunca chegou, e eu desisti de esperar. Desisti de tentar e falhar, vezes sem conta. De prolongar discussões por mais de três anos.
Durante esse tempo, pensei noites inteiras como seria quando nos separássemos. Pensava onde ía morar, como nos poderiamos organizar. Como seria com as miúdas, procurava casas na internet, para mim e para ela, tantas vezes. Ouvi-a dizer que se queria separar, mais recentemente até que só não se separava porque não tinha dinheiro, porque não tinha trabalho, e isso custou-me ouvir. Por mais de uma vez disse-o a outras pessoas: a sua mãe, à avó, à minha cunhada... Custou-me bastante ultrapassar isso e continuar a tentar. Ouvi-a dizer-me que nos podíamos separar, e que eu ficasse com a Madalena, que ela ficava com a Mercedes, quando esta ainda era muito pequeninda, na mesma altura em que estava de licença de maternidade, e eu tinha de sair de casa ao fim de semana com a Madalena, com três anos, tal era o teor das discussões comigo e com a nossa filhota, em que dizia entre outras coisas que era um inferno o fim de semana porque não estavam sozinhas (dizia-o para a Mercedes). E para que a Madalena não escutasse isso, eu saía com ela, e deixava de estar com a família reunida no único momento que tinha para descansar e estarmos todos juntos. Olhando para trás, vejo que os nossos fins de semana foram assim durante muito tempo, entre discussões e desacordos, em vez de estarmos bem e a recarregar energias para mais uma semana de trabalho. Não faz qualquer sentido...
Quero que as minhas filhas olhem para mim e vejam um pai completo, verdadeiro, autêntico. Uma pessoa com defeitos e qualidades, é certo, mas que é aquilo que é, e que elas conhecem. E quero que elas olhem para o pai e sintam que ele é feliz. Mesmo estando sozinho, que ele se faz rodear de amigos e família, e que se estiver com alguém, será com alguém que o ama, e cujo amor seja para elas o exemplo daquilo que pode ser o relacionamento entre duas pessoas que se amam.
Não quero quebrar laços entre as nossas filhas e a mãe, seria incapaz de o fazer. Mesmo achando que elas estariam melhor comigo, elas têm o mesmo direito de estar com a mãe e com o pai, e seria injusto se assim não fosse. Serei sempre o primeiro a dizer-lhes que estejam com a mãe de igual forma, que partilhem tudo com ela, como comigo. E só não as incitarei a tal se tiver a certeza que a mãe as maltrata ou prejudica em alguma altura das suas vidas. Não sou capaz de lhe tentar tirar esse direito. Não é justo. Não é justo para a mãe, mesmo que pudesse ser melhor para as crianças. Mas, de qualquer modo, não me parece que elas devam ficar privadas do mesmo tipo de relacionamento com o pai e com a mãe. Partindo do princípio que sempre estiveram com ambos, não faz sentido que se quebre a ligação com qualquer um dos dois.
Haverá entendimentos de psicólogos e educadores, que julgam ser mais prejudicial a guarda alternada, por alegar que a mesma não proporciona às crianças um único lar, um porto de abrigo onde se sentem seguras. Talvez faça algum sentido. Mas não haverá por esse mundo fora imensas crianças que ficam em casa dos avós, durante o dia, e tantas vezes até à noite, porque os pais trabalham até tarde e só as podem ir buscar às 22h? Eu conheço vários casos. Casos em que por vezes aí pernoitam, inclusivé. Neste caso também há duas casas, uma dos pais, outra dos avós. E quando a família passa o fim de semana num determinado local? Eu sempre passei o fim de semana numa casa que os meus pais tinham de férias, e sempre me senti confortável lá, como na casa onde permanecia durante a semana. Será ‘a casa’ assim tão importante, ou não será mais importante o ambiente familiar que é proporcionado às crianças, e que deve ser tranquilo, confortável e equilibrado?
Claro que reconheço que a guarda alternada obriga a um entendimento enorme entre os pais. Para que faça sentido, mais do que tudo o resto. Mas isso parece-me tão positivo! Não será melhor que os pais continuem próximos, de modo a poder contar um com o outro na sua vida, apoiando-se, e servindo de suporte às crianças sempre que necessário? Se a mãe delas tiver uma reunião até tarde, ou uma consulta de manhã cedo, não fará mais sentido que as miúdas fiquem comigo, do que com outras pessoas? Não fará mais sentido que a mãe possa contar com o pai no seu dia a dia?
As crianças poderão ter duas casas confortáveis, ter as suas roupinhas das diferentes estações, os seus brinquedos numa e na outra casa. Poderão ter o seu quarto em cada uma das casas, e só terem de levar o essencial quando passam de uma para a outra, ó-ós, fraldinhas, chucha...
A transição de um lar para o outro, pode ser feita de um modo simples e descomplicado, de modo a evitar conflitos, limitações de horários e possíveis pressões ou discussões entre os pais. Se as for buscar 6ª feira ao final do dia ao colégio ou à escola, e permanecer com elas até 6ª de manhã seguinte, quando as entrego no colégio ou na escola de manhã, é simples, responsável, sem dramas ou alegados incumprimentos.
Mas por muito que esta situação pudesse ser prejudicial para as crianças, poderá ela ser mais prejudicial do que elas passarem a viver apenas com um dos pais, vendo o outro como uma ‘visita’, e estanto com ele dois fins de semana por mês? A ausência de permanência e de partilha com um dos pais, é certamente mais prejudicial no presente e para o futuro destas crianças. A ligação ao pai e à mãe deve permanecer como ela é, e se essa ligação é intensa, ela não se deverá quebrar, só porque sim.
Não há, ainda ninguém me apontou, um motivo (ficando elas com um dos pais, e vendo o outro apenas dois fins de semana por mês) para que elas permaneçam com a mãe e não com o pai. No nosso caso em concreto, não há nada que o justifique!
No entanto, pelas nossas filhas, acho que vale a pena todo o esforço e empenho para que resulte, a guarda alternada das crianças. É sem dúvida o melhor para elas, nesta fase, em que estão muito ligadas a ambos. É urgente a regularização desta situação, para que termine definitivamente o ambiente hostil que se vive na nossa casa. Para que lhes possa ser explicado porque é que o pai dorme num quarto e a mãe noutro, porque é que os pais agora nunca saem juntos, e alternam os fins de semana com elas, sem a presença do outro.
É chegado o momento de assumir as coisas como elas são, delas deixarem de presenciar as discussões sem sentido, e que possam estar em paz com cada um dos seus pais, num lar equilibrado, cuidado, com a tranquilidade, paz e amor que elas merecem.
O momento da separação chegou, não faz sentido continuar a acreditar numa coisa que nunca vai chegar. Tentei com todas as minhas forças encontrar soluções. Fui demasiado tolerante, vezes demais. Fiz demasiadas coisas, sem qualquer reconhecimento. Vivi demasiado tempo sem estar a partilhar a vida, o caminho que ela nos oferece, e prolonguei demasiado uma situação que nunca devia ter chegado onde chegou.
Mais uma vez, a total inflexibilidade da mãe das minhas filhas, revela que ela não tem o bom senso, a capacidade de sair dela para se colocar na posição do outro, que não tem a preocupação com as miúdas em primeiro lugar, não se coibindo de prolongar esta situação indefinidamente, não procurando resolver nada. Fica à espera que tudo se resolva pelas mãos ou pelas decisões dos outros.
Disse-lhe que me queria separar a 26 de Julho de 2009. Disse-lhe que era definitivo, que não havia volta a dar. Tínhamos discutido meses antes, como há mais de um ano atrás, quando estivemos mesmo para nos separar anteriormente. Em Março, ou Abril, não sei precisar, a discussão foi tal, que ela se atirou para o chão, em frente às miúdas, e tive de sair de casa com elas, levá-las a casa de uns amigos meus, para explicar o que se tinha passado à minha sogra, para lhe pedir ajuda porque não era possível continuar assim, porque as miúdas não podiam continuar a ver aquelas situações repetidamente.
Das vezes em que falamos em nos separar, tirando quando a Mercedes era recem nascida, a mãe delas sempre reconheceu que elas ficavam melhor comigo. Só mais tarde disse que não iria aceitar que não ficassem com elas, caso contrário matava-se. Mais uma vez, não foi razoável, ou equilibrada.
Nesta última discussão, expliquei à minha sogra o que tinha sucedido e disse-lhe que não acreditava que conseguissemos ultrapassar isto uma vez mais, sem que antes houvesse uma separação mesmo, acreditando que isso nos poderia mudar, fazer ver as coisas por outra perspectiva, e depois talvez então resultasse. Não resultou. Não nos separamos, tudo continuou na mesma. Até aquele dia a 26 de Julho...
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